Manobra de Valsalva comum e modificada: protocolo, indicações e riscos
- Carlos Felipe

- 12 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Índice rápido
Resposta rápida
O que é a manobra de Valsalva?
Como fazer a manobra de Valsalva modificada (protocolo REVERT)
Quando usar na prática clínica
Quando não usar ou ter cautela
Outras aplicações clínicas da Valsalva
Riscos e contraindicações
Perguntas frequentes
Resposta rápida
A manobra de Valsalva é uma expiração forçada contra vias aéreas fechadas, usada principalmente para tentar reverter taquicardia supraventricular (TSV) estável por estímulo vagal. A versão modificada — soprar por 15 segundos seguido de decúbito dorsal com elevação passiva das pernas por mais 15 segundos — tem taxa de reversão maior que a técnica tradicional isolada, segundo o estudo REVERT. Não deve ser usada para atrasar tratamento em paciente instável.
O que é a manobra de Valsalva?
Nomeada em homenagem ao anatomista italiano Antonio Maria Valsalva, a manobra consiste em expiração forçada contra a glote fechada (ou contra resistência), aumentando temporariamente a pressão intratorácica. Esse aumento de pressão reduz o retorno venoso durante o esforço; ao liberar, o retorno venoso aumenta bruscamente, estimulando o barorreflexo e o nervo vago. Esse estímulo vagal pode reduzir transitoriamente a condução pelo nó atrioventricular — mecanismo central de seu uso em taquicardias supraventriculares dependentes desse circuito.
Como fazer a manobra de Valsalva modificada (protocolo REVERT)
Posicione o paciente semi-sentado, com monitorização cardíaca e ECG quando disponível.
Peça que sopre contra resistência por 15 segundos — soprar uma seringa de 10 mL tentando deslocar o êmbolo é uma forma prática de padronizar o esforço.
Ao final do esforço, deite o paciente rapidamente em decúbito dorsal.
Eleve passivamente as pernas a cerca de 45 graus por mais 15 segundos.
Retorne à posição semi-sentada e reavalie ritmo, sintomas e estabilidade clínica.
A técnica modificada (esforço + decúbito + elevação de pernas) mostrou taxa de reversão maior que a Valsalva tradicional isolada (apenas o esforço expiratório) no estudo REVERT — a sequência e o tempo de cada etapa importam tanto quanto o esforço em si.
Quando usar na prática clínica?
A principal indicação é taquicardia supraventricular paroxística em paciente estável, com ritmo regular, de complexo estreito e mecanismo provável dependente do nó AV. Registrar um ECG antes e depois, sempre que possível, ajuda a confirmar o diagnóstico e documentar a resposta.
Quando não usar ou ter cautela com a manobra de Valsalva
Instabilidade hemodinâmica ou sinais de choque — priorize cardioversão elétrica sincronizada.
Dor torácica importante ou suspeita de síndrome coronariana aguda.
Dispneia intensa, edema agudo de pulmão ou insuficiência respiratória.
Arritmia irregular, ou ritmo em que a manobra não é a abordagem indicada.
Glaucoma ou doença ocular significativa — a manobra eleva a pressão intraocular.
Doença cardiovascular grave preexistente, pelo risco de estresse cardiovascular abrupto.
Outras aplicações clínicas da Valsalva
Além da tentativa de reversão de TSV, a manobra é usada para avaliar resposta hemodinâmica (útil em disautonomia e hipotensão ortostática), testar reflexo barorreceptor e função autonômica, e auxiliar na avaliação de sinais de hipertensão intracraniana — sempre como ferramenta complementar, nunca isolada, à avaliação clínica.
Riscos e contraindicações da manobra de Valsalva
Em pacientes com doença cardiovascular grave, o aumento abrupto de pressão pode precipitar eventos isquêmicos. A manobra também pode induzir arritmias em predispostos, causar tontura ou síncope por queda transitória do fluxo cerebral, e elevar a pressão intraocular em pacientes com glaucoma.
Uma comparação direta entre a Valsalva modificada e a adenosina — e como decidir qual tentar primeiro na taquicardia supraventricular — está no post sobre Valsalva modificada vs. adenosina.
Perguntas frequentes
A manobra de Valsalva modificada é mais eficaz que a tradicional?
Sim, segundo o estudo REVERT, a combinação de esforço expiratório com decúbito dorsal e elevação passiva das pernas aumentou a taxa de reversão de TSV em comparação à Valsalva tradicional isolada.
Precisa de seringa para fazer a manobra?
Não é obrigatório, mas soprar uma seringa de 10 mL tentando mover o êmbolo é uma forma prática de padronizar a resistência do esforço expiratório.
A manobra de Valsalva serve para qualquer taquicardia?
Não. É mais útil em taquicardias supraventriculares regulares, estáveis e dependentes do nó AV. Arritmias irregulares ou pacientes instáveis exigem outra abordagem.
Conteúdo de referência clínica assinado pelo Dr. Carlos Eduardo Miranda Bruzzi Felipe (CRM/MG 105.721), médico com experiência em emergência pediátrica. Revisado em 26/07/2026. Não substitui consulta médica individualizada.





